A alucinação e o delírio

Dando aula de psicopatologia esses dias, me deparei em duas turmas de alunos com a mesma questão, que também surgiu em uma pergunta de uma colega do trabalho: o que é a alucinação e o delírio?

Muitos confundem esses dois sintomas, referindo-se a alucinações como se fossem delírios, e vice-versa.

Obviamente esclareci as diferenças quando a questão me foi colocada, e achei interessante postar isso aqui no blog, pois acredito que essas coisas são faladas no senso comum sem muito critério, e  é sempre bom poder saber do que se está falando.

Alucinações e delírios são sintomas produtivos das psicoses.

Alucinações são vivências que o sujeito experimenta, relacionadas à sensopercepção, podendo ser visuais, auditivas (ou verbais, já que sujeitos surdos também apresentam esse tipo de alucinação), motoras, de sensações corporais. Enfim, são coisas que a pessoa sente, vivencia.

É importante ressaltar que nem todo mundo que escuta alguma coisa ou vê algo está alucinando. Exitem “falsas alucinações”, sensações muitas vezes produzidas pelos próprios desejos de um sujeito. Freud nos fornece um exemplo de uma jovem que ouvia o apito de um trem chegando, enquanto aguardava ansiosa a chegada de seu noivo.

A alucinação na psicose é sempre uma vivência que invade, percebida como vinda de fora, com o estatuto de certeza subjetiva. Frente a essas vivências, para sair dessa sensação de invasão, o sujeito tem que dar alguma solução, algum tratamento a isso, o que muitas vezes é feito através do delírio.

Já o delírio é ligado ao pensamento. São idéias que a pessoa cria, constrói, muitas vezes para dar conta das experiências alucinatórias que vivencia. É como uma espécie de história que o sujeito cria e que de certa forma, por mais “fora da realidade” que possa parecer, estrutura a sua realidade.

Freud apontava o delírio como uma tentativa de cura. É muito importante, na clínica com a psicose, que o profissional possa escutar o delírio, e não tentar fazer com que este sintoma tenha uma remissão.Não se trata também de “delirar junto” com o sujeito, mas de permitir que ele faça sua própria construção.

Se a crise psicótica se caracteriza por uma ruptura na história e no mundo do sujeito, pela via das vivências alucinatórias, o delírio é uma tentativa de reestruturar isso que foi destruído.

Ainda que o delírio seja “muito louco”, temos que entender que, da mesma forma como as pessoas ditas “normais” , ou neuróticos, constróem suas vidas com base em suas fantasias inconscientes, o psicótico tenta fazer isso muitas vezes pela via do delírio.

Assim, é melhor delirar do que ficar imerso e invadido pelas vivências alucinatórias e corporais, que jogam o sujeito muitas vezes em uma mortificação, em uma posição de objeto. Ao constituir um delírio, se pode aceder minimamente a uma posição de sujeito, tomar a palavra, criar uma história, ainda que não compartilhada socialmente.

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